Pesquisa UnB

Rosa Maria Jaques participa de pesquisa científica na UnB (Universidade de Brasília)

"Sempre me permiti a experiência, nada substitui a prática como forma de obter conhecimento, vivenciar meus limites na procura do entendimento do que acontecia comigo e auxiliar outros "paranormais" a sofrerem menos preconceito, deboche ou serem rotulados de loucos. Me submeti a todos os testes propostos pela ciência e a situações não tão pragmáticas do lado místico. Entendi a dificuldade que a percepção racional tem em analisar processos sensitivos como também o papel da fantasia no emaranhado mundo místico/religioso.

A alguns anos atrás, lendo o Correio Braziliense, algo me chamou atenção no caderno de classificados, um convite a pessoas com experiências espirituais a participarem de um pesquisa. Meu marido ligou e nos inscrevemos. Esta pesquisa consistia na tese de doutorado da psicóloga Dra. Célia Carvalho de Moraes - intitulada Trabalhando com os fenômenos religiosos e espirituais: uma proposta metodológica para avaliação da experiência de ampliação de consciência no processo grupal (Moraes, 2002) - orientada pelo psicólogo Dr. Jorge Ponciano Ribeiro, que formataram um trabalho, cujo texto organizado com outros pelo psicólogo Dr. Adriano Furtado Holanda, Coordenador do Grupo de Pesquisas em Psicologia e Fenomenologia da Religião e da Espiritualidade da UnB, resultou no livro Psicologia, Religiosidade e Fenomenologia.

No livro, na página de rosto há a citação da famosa frase de Albert Einstein : " A ciência sem religião é aleijada, a religião, sem a ciência, é cega".

Agradeço a amiga Dra. Célia a oportunidade de mostrar que a sensibilidade/paranormalidade deve ser estudada pela ciência sem o preconceito que muitas vezes a Academia demonstra e que dentro da "caixa preta" do ser humano tem muito ainda a ser descoberto e que como veremos, nem tudo é loucura.

A seguir parte do texto da tese de doutorado de Dra. Célia:
4.2. Uma fenomenologia da paranormalidade – Rosa Maria, 51 anos
Introdução
A paranormalidade é um dos temas mais controvertidos do senso comum, sendo quase totalmente desconsiderado no âmbito acadêmico. Porque – como a própria expressão denota – o fenômeno paranormal está “além do normal”, é em geral considerado como praticamente impossível de ser avaliado racionalmente, assustador em muitos aspectos e até mesmo marginal e proibido. No entanto freqüenta intensamente a vida privada das pessoas, as rodas de amigos, os círculos daqueles que acreditam neles ou os vivenciam de forma suficientemente integrada, cuja companhia se torna um porto seguro para pessoas que, atormentadas pela própria incompreensão dos fenômenos que vivem, buscam aceitação, ajuda, explicações e conselhos isentos de preconceitos. O indivíduo paranormal é um dos primeiros a acorrer quando surge a possibilidade de uma discussão ampla e aberta sobre o tema das experiências transcendentes. Muitas vezes vinculado a uma tradição religiosa que acolhe e teoriza sobre esses fenômenos, outras vezes ele se vê impossibilitado de abraçar essas explicações[1] , e vive existencialmente só, numa atitude mista de espera e busca ansiosa de aceitação e pertencimento. Nos dias de hoje ele tem sorte se não se desestrutura e engrossa a população hospitalar. Na maior parte das vezes, no entanto, ele esconde sua “anormalidade” e procura meios de neutralizá-la.
Uma postura menos “fechada” no ponto de vista médico dominante percebe em primeiro lugar a imensa extensão da ocorrência desses fenômenos no dia a dia brasileiro, quiçá mundial. Em segundo lugar, a urgência da necessidade atual de um maior respeito à idiossincrasia e aos direitos humanos dos doentes mentais demanda a busca de métodos de compreensão dos fenômenos paranormais, que podem estar por trás dos sintomas de alguns doentes mentais e emocionaisatualmente considerados sem esperança de recuperação. Assim sendo, dispomo-nos aqui a proceder a uma investigação dos processos paranormais como se apresentam a Rosa Maria, participante da pesquisa, baseada na análise das entrevistas fenomenológicas e seus relatos, no intuito de colaborar para a sua compreensão. Novamente, este trabalho também será uma etapa de um diálogo em andamento, e não objetivaremos conclusões definitivas.

Histórico

Rosa Maria viu o anúncio da pesquisa no Correio Braziliense e pediu a João, seu marido, que entrasse em contato, pois “sentiu que a pesquisa tinha uma boa energia”, e queria colaborar para “acabar com preconceitos e ajudar pessoas em sofrimento a se organizarem”.
Rosa vem realizando um trabalho intensivo sobre a paranormalidade, com palestras de esclarecimento público e cursos para instruir e orientar paranormais “ainda não organizados” e “desorganizados”, como uma proposta de vida. No momento de nossa entrevista estava no prelo um livro[2] seu sobre o tema, e em seguida entraria em fase de publicação um outro livro sobre sua vida pessoal e suas “visões”[3] . Rosa vê (imagens interiores e exteriores) e sabe (“pega” a idéia, o pensamento de alguém)o que acontece no passado, no presente e no futuro. A vidência tem uma utilidade prática – Rosa alerta e aconselha pessoas sobre os acontecimentos que vê, e já ajudou a solucionar casos de desaparecimento de pessoas.
Rosa conta que sua história de paranormal “começou três dias antes de seu nascimento”, quando uma benzedeira diz para sua mãe que ela “será uma vidente muito conhecida e muito respeitada”. Sua primeira experiência acontece aos seis anos, quando Jesus Cristo, num quadro, “movimenta a cabeça, sorri e pisca” para ela, deixando-a muito assustada, a ponto de pedir à sua mãe que retire o quadro da parede. Desse dia em diante esse e outros tipos de acontecimentos passam a ser cotidianos. Criança, sabe o que vai cair nas provas, conhece o pensamento de pessoas e vê os mortos junto de seus parentes, e por algum tempo acha que todas as pessoas são assim.
Adulta, esses acontecimentos vêm a se tornar seu ganha-pão: saber o que vai acontecer em breve com aqueles que a procuram em busca de orientação, descrever a vida de uma pessoa apenas de olhar um retrato, ler pensamentos e aconselhar sobre as conseqüências deles, encontrar objetos e pessoas perdidos, transmitir recados de pessoas distantes ou mortas, alertar pessoas sobre chances de acidentes e problemas no futuro próximo e, solicitada, aconselhar sobre a melhor escolha a fazer, a ponto de, hoje, “políticos e pessoas influentes a procurarem normalmente”. No entanto, nem sempre foi assim. Na puberdade, cerca de doze anos, ela tem vivências na maioria descontroladas, como saídas do corpo e conflitos com as pessoas a quem revela o que sabe, e que “se incomodam com a verdade”. Essas pessoas reagem ameaçando-a, e muitas vezes “sem verbalizar”, o que a deixa confusa e perturbada. Enfim ela se revolta com as pessoas à sua volta, briga muito e se torna muito agressiva.
Claro que quando era adolescente e mais nova eu ficava ansiosa, porque eu captava uma energia e não administrava. Principalmente quando as pessoas pensavam certas coisas, eu me incomodava, dizia: “você já está pensando isso..”, e já saía dizendo, ou se tinha que me defender, eu me defendia, ou eu saía brigando. Pelo pensamento - a telepatia, né? O que elas pensavam eu não tinha tranqüilidade de dizer: “olha, fulano, o que tu tá pensando é isso”, não, já brigava, também. (...) Fui, fui muitos anos agressiva, de fato.
Mais tarde, percebe que “foi protegida pela vidência, e não recebeu um rótulo muito grande de louca porque falava coisas que as pessoas não tinham como negar”. Jovem, sem essa percepção, desestrutura-se. Começa então uma peregrinação pelas religiões, procurando um lugar que a ajude a se estruturar, mas que a compreenda e a aceite com a sua vidência, que é “a sua natureza”. Mas também dentro das religiões ela é rejeitada: no espiritismo, entra em conflito com a atitude das pessoas, que confundem questões espirituais com emocionais.
...quando eu entrava nesses lugares eles diziam “a fulana está incorporada” e eu dizia “não, a fulana não está incorporada. Ela está com um problema psicológico, emocional e ela está fazendo uma catarse”. “Mas como? Ela está com o demônio”, e eu “não tá com demônio nada; ela brigou em casa e veio botar pra fora”... Então eu comecei a ter problemas com as religiões, porque não era espírito, eram problemas psicológicos e emocionais. Eu via.
Nas religiões de linha espírita, apesar de a testarem e reconhecerem como vidente, dizem-lhe que vai enlouquecer porque não trabalha com guias incorporados, não aceita autoridade e não “se enquadra” nos dogmas. Alguns desses grupos religiosos tentam doutriná-la e submetem-na a rituais para tirar-lhe a paranormalidade, e novamente ela se revolta .
(...) esse pessoal de religião me botou em “pólvora de sete cantos”, me levaram pra encruzilhada pra tirar isso que eu tinha, fizeram gatos e sapatos. Um dia no meio daquilo tudo eu disse: “vocês não vão tirar isso de mim porque isso sou eu, eu não tenho diabo, não tenho nada. Isso sou eu, isso eu ganhei. Eu ganhei, e ninguém vai me tirar”. Aí o pessoal me achou muito arrogante. Quando eu disse que ninguém ia me tirar a não ser quem me deu, o pessoal da religião me achou muito arrogante e naquele lugar eu não fui mais.
Desiste então das religiões e passa por uma fase muito difícil, porque “a religião (seja a espírita, a católica, os mórmons ou evangélicos) lhe tirou um suporte”. Vai em seguida “procurar a ciência: psiquiatria, psicologia, e também as filosofias: teologia, essas coisas”. A “ciência” (parapsicologia) chega também à conclusão de que está prestes a enlouquecer porque, dizem, “a paranormalidade não pode ser usada 24 horas por dia”; como ela a usa 24 horas por dia, vai levá-la ao desequilíbrio e à autodestruição.
Menina, eu tenho 51 anos e tive dificuldade pra chegar até a ciência pra poder ter um diálogo franco comigo, lamentavelmente. Eu não vou dizer pra ti, porque tu não tem culpa, mas eu vou dizer isso: a ciência não quis me ajudar; agora eu não preciso dela. Literalmente. Quando eu precisava que a psicologia me apoiasse, que a ciência não me dissesse: “Tu não vais enlouquecer, senta aqui, vamos conversar”, a ciência me cravou um punhal tanto quanto as religiões. “Tu não serve, eu não consigo te controlar, tu não me é útil”. Isso me feriu muito como ser humano. Também a família quer interná-la, porque Rosa é incômoda: “a verdade é incômoda, né?” No impasse, muito sozinha, totalmente desgastada e desestruturada emocionalmente, Rosa vai para casa e recolhe-se. Sabe que “os hospícios estão cheios de paranormais desorganizados, mas sabe também que esse não é o seu destino”. Medita sobre sua paranormalidade, e conclui que a recebeu, não pediu. Conversa com Deus e passa então pela primeira de uma série de experiências que finalmente vão organizar e transformar sua vida.
Então cheguei em casa, sozinha, estava chovendo, e comecei a pensar que existe alguém lá em cima. Eu não estudei, eu não quis e eu tenho isso. Então quem me deu isso de alguma forma vai ter que me estruturar. Eu quero saber, eu quero conhecimento, eu quero caminho, porque a hora que eu tiver o mínimo desse conhecimento vai ser minha proposta de vida. Porque, como eu, muitas pessoas estão passando por isso e se vocês me organizarem, tu que é Deus, eu vou... essa vai ser minha proposta de vida. Me estruturar, me organizar pra mostrar que nós somos pessoas normais, que nós temos condições, que nós somos uma raça de igualdade (...). Então eu adormeci e me foi dito, através da vidência: “É com psicólogo que nós vamos te dar todo o apoio psicológico”. E eu busquei uma psicóloga.
Rosa atribui a sua reestruturação emocional – que chama sua “organização como sensitiva” – a esse processo psicoterapêutico. Nele, passou a “tratar o psiquê, a emoção, a estrutura, o equilíbrio psicológico e emocional entre a sensitiva e a pessoa”. Recebeu aceitação de sua terapeuta e encontrou tranquilidade para enfrentar suas questões emocionais em seus relacionamentos sociais e familiares. Após certo tempo reconstruindo em psicoterapia sua estrutura emocional, Rosa passa por outra experiência transformadora: numa regressão, com o apoio de sua terapeuta, ela vê uma cena protagonizada por uma ancestral.
...eu vivenciei uma cena, e durante a cena a Catarina[4] (...) ia me proporcionando tranqüilidade. Aí eu comecei a me sentir muito mal naquela regressão e eu lembro que a Catarina me disse: “Rosa, é o teu momento de ver a realidade, é o teu momento de ver daonde que tu herdou isso, o que é isso, quem teve isso, se tu foi isso no passado”. Aí começou a aparecer uma cena, eu comecei a descrever a cena, e minha respiração começou a ficar muito forte. E Catarina disse: “Olha, tu não está mais nesse momento, é intemporal, está no teu inconsciente, tenha tranqüilidade que isso não vai afetar o teu organismo, veja com tranqüilidade”. E ela segurou minha mão. E eu comecei a ver. A ver uma coisa muito estranha, que um ancestral meu era uma vidente, uma paranormal como eu, com a mesma força, a mesma intensidade. Com a mesma calibragem. Eu comecei a me sentir mal porque ela tinha morrido com problema de pulmão. E a Catarina: “Rosa, olha bem, é tu que está morrendo ou quem está morrendo? Olha bem”. Aí de repente eu relaxei e vi que não era eu, e sim eu estava vendo alguém morrer. Ela me pediu pra descrever quem estava morrendo, daonde vinha aquela pessoa. Aí eu comecei a ver que a reencarnação era uma genética minha, que intemporalmente, dentro do meu inconsciente, do meu DNA, ela também fazia parte de mim. (...) Então ela perguntou (...) “O que você tem em comum com ela?”. E eu: “O mesmo processo de rejeição”. Entendeu? O mesmo processo. Derejeição. Porém com uma diferença: eu não rejeitava a mim, eram os outros que me rejeitavam, e ela rejeitou a si própria, ela renunciou, era vidente e não quis mais ser vidente, e morreu. (...) Eu vivenciei tão plenamente ela mas com uma tranqüilidade, que eu soube que eu não era ela, ela era um ancestral. (...) Com aquela estrutura que a Catarina me deu, de organização psicológica e emocional, de apoio, (...) de aceitação, eu consegui ver claramente que não era eu. (...) Então eu não estava mais sozinha, alguém sofreu como eu por ser uma vidente, alguém também teve problemas emocionais e psicológicos como eu, só que era ela não era eu. Quando eu voltei eu vi que não estava sozinha nesse mundo, ao menos dentro do meu universo alguém tinha passado o que eu passei. Eu fui começando a me organizar, e fui começando a entender o que era a reencarnação, o que era uma emoção...
Desse momento em diante, muito poderoso por ser provavelmente o primeiro momento de verdadeira aceitação de sua individualidade e verdadeiro enfrentamento de fatos, e não de opiniões sobre suas vivências, Rosa passa a dedicar sua vida a aprender sobre si mesma e sobre a paranormalidade – reencarnação, vidência, telepatia, etc – sobre as relações entre os fenômenos paranormais e as emoções humanas, e a ajudar outros paranormais a se compreenderem, se aceitarem e se organizarem.
Sua descoberta mais importante, dentro desses novos parâmetros, é a fonte de sua angústia. Rosa percebe que uma paranormal é antes de tudo uma pessoa humana que tem uma vida cotidiana e uma emocionalidade normais. Está inserida num mundo em que coisas boas e ruins acontecem com os indivíduos e com o coletivo, e que existem coisas que dependem e outras coisas que não dependem dos seres humanos, mesmo sendo paranormais. Ou seja, Rosa teve que encontrar e aceitar seus limites e discernir entre os fatos da paranormalidade e sua condição de ser humano. Para isso, porém, tive que trabalhar muito a minha pessoa, o ego, a afetividade, a personalidade Rosa Maria. Não adiantaria recuar no tempo se não tinha minha atualidade resolvida. Deveria saber que eu sou eu agora, e não a Rainha de Sabbah no passado. Que sou a síntese de tudo o que fui. E não achar que minha angústia foi porque morri queimada em outra encarnação. Não. A angústia era derivada da falta de um trabalho psicológico, emocional, e de uma insatisfação com as coisas atuais. (...) Já havia percebido que o movimento não era para fora, mas sim pra dentro. Eu não tinha que tomar um foguete, mas embarcar no meu submarino e submergir nas profundezas de mim mesma. (da autobiografia de vidência). Sistema de compreensão do mundo paranormal
“Se organizar, coordenar-se como pessoa” (e só depois como paranormal) significa para Rosa se desidentificar daquilo que não é seu. Significa “trabalhar o psiquê, as emoções, o equilíbrio, a estrutura dos egos pessoais e as inseguranças, de modo que o desequilíbrio de outras pessoas não a afete, e aquilo que é pessoal não passe para outras pessoas”, para que aquele que vivencia a paranormalidade possa ter segurança e tranquilidade para compreender, organizar e utilizar apropriadamente aquilo que vive. Acredita que isso deva ser feito por psicólogos que, como Catarina, aceitem e compreendam as experiências paranormais como uma capacidade natural inerente ao ser humano, e tragam os seus conhecimentos técnicos para ajudar a estruturá-los emocionalmente. (Catarina conseguiu) me acompanhar, me dar estrutura ouvindo. “Olha, Rosa, não tenha medo, tu é uma sensitiva, tu vai vivenciar...”, então ela tem um trabalho pro meu psiquê, não pra vidente, pra sensitiva. Quando a sensitiva foi pro intemporal, e foi acompanhada com o psiquê, com a razão pra poder entender, ela estava conectada com o ser. Um dos interesses centrais de Rosa é trabalhar para que os detentores de algum poder compreendam que a vivência de cada um deve ser respeitada; que ninguém, seja na ciência seja na religião, pode induzir ou determinar o que cada um deve pensar e viver; que o que um outro pensa ou “acha” da experiência de alguém não pode ser limitador da continuidade de sua vida. Paranormais de nascença que, assim como ela, receberam a vidência, ou a telepatia, ou outra “onda”[5] , são pessoas iguais às outras – diferenciadas, mas normais – que terminam sendo arbitrariamente destacadas da totalidade dos seres humanos normais, e classificadas. E que essas pessoas precisam se compreender e se reintegrar.

Nós temos por princípio que não se julga as pessoas - se compreende as pessoas. Não porque eu quero ser boazinha e sim porque as pessoas têm o direito de fazer, o direito de buscar suas verdades e têm direito de trilhar qualquer caminho. Então quando as pessoas vêm contar que estão vendo coisas, tendo experiências de paranormais (dizem): “esse é louco, interna que é louco”. A única loucura que teve é que a coitada não teve equilíbrio de vivenciar aquilo e de passar... Porque se uma pessoa de repente vê uma coisa, passa por um fenômeno, desestrutura. Porque ela não foi ensinada a ser uma paranormal. (...) E o desequilíbrio emocional, psicológico, ele faz o racional interpretar errado. (...) Agora eu consegui ter uma postura pra chegar perto da minha gente e dizer: Ciência? Vocês estão muito bem encaminhados, mas espera aí um pouquinho, vamos ver o outro lado. Vamos pegar os paranormais e dar estrutura, mas não vamos rotular de louco. Rosa passa então muitos anos estudando e desenvolvendo uma estrutura de sentido, uma linha de raciocínio e uma linguagem que em primeiro lugar torne compreensíveis para si mesma os fenômenos paranormais, uma linguagem coerente com a qual possa expressar-se e comunicar suas vivências, e assim trocar idéias e experiências, seja com as pessoas em geral, seja com outros paranormais. Assim, no seu sistema de compreensão Rosa defende que as religiões foram fundadas por sensitivos ou paranormais que trouxeram noções importantíssimas para a humanidade, mas que foram deturpadas por seguidores limitados.
Eu não sou contra ninguém. Muito menos contra paranormais que deram noções pra muitas outras pessoas. Não sou contra Buda, não sou contra ninguém. Sou contra a forma que está sendo manipulada, convencionalmente, por terceiros, sobre a experiência deles, isso eu sou contra. Sou contra pessoas que usam o seu... potencial pra manipular e controlar pessoas. Defende a idéia de igualdade entre todos os seres humanos e o respeito pela diferença e pelos potenciais dos outros. Compreende fé como “a certeza intuitiva[6] do próprio potencial, a certeza de si próprio, da força de si próprio”. Desenvolve a idéia de genética como um antepassado ou ancestral cujas vivências estão presentes na própria célula do corpo atual (no DNA) e podem ser lembradas com a “sintonização” adequada. Desenvolve a idéia da possibilidade da paranormalidade ser a utilização (de parte) dos 90% não utilizados do cérebro. Faz pontes e defende a complementariedade entre os campos de conhecimento.
Porque tudo é através do cérebro. A ciência diz que nós trabalhamos com 10%. Ficam 90%, né? A religião adora o oculto: “Porque eu sou a Rainha de Sabá”, “Porque eu sou a fulana”; pra psicologia é o inconsciente. E tudo isso é a mesma coisa. Os 90, o inconsciente e o oculto - é o nosso cérebro! Os noventa por cento! Olha só que coisa estúpida: se igualar tudo isso, quem vai ter a razão? Ninguém. Todo o mundo vai ter que aceitar. Quem vai ter o poder? Se a ciência admitir que os 90% é o oculto e é o inconsciente, se a religião admitir que o oculto é o inconsciente e os 90, perdeu-se o poder de todo mundo. Todo o mundo vai ter que sentar e dizer: “Vamos lá - eu quero aprender com a tua ciência pra tratar o meu ‘oculto’”. Vai ficar muito comum, e é isso que as pessoas não querem: ser iguais. A igualdade. E mesmo dentro da igualdade, ninguém é igual. Só que eles não entendem isso. Quanto mais nós procurarmos a igualdade, mais vai haver a necessidade de uma organização das células, que são os seres humanos, pra organizar o inconsciente coletivo da humanidade. Porque dentro dessa igualdade cada um vai direcionar a sua paranormalidade dentro do que herdou da sua genética, dentro da sua personalidade, dentro da sua índole, dentro da sua proposta de vida. Ninguém é igual a ninguém. Fica diferente, mas é um diferente de equilibrado, de “parte”.
Esse é outro tema preponderante no sistema de compreensão e na proposta de vida de Rosa: a criação de uma atitude de interação e cooperação entre aqueles que, sejam religiosos ou cientistas, trabalham com “pessoas que são chamadas de loucas, mas que na verdade são paranormais desorganizados”.
...porque o ser humano é igual nas suas semelhanças e diferente nas suas atitudes, igual no seu ser e diferente na sua pessoa e personalidade. Mas isso não impede um trabalho em comum acordo, um trabalho em comunhão. A comunhão nada mais é que seres querendo algo próprio pra si e pros outros. (...) Nós temos que unir a ciência e a religião, não em choque, mas com verdade. Vou admitir que eu sou uma paranormal, mas eu também preciso da psicologia, que está no meu ser como emoção. Nós vamos ter que admitir que ninguém vive sem o outro, que também os paranormais são seres humanos que tiveram as suas intuições, que têm as suas energias... Temos que admitir que quanto mais conhecermos um ao outro, poderemos nos melhorar. (...) Nós temos de nos ver, não nos separar, não nos desclassificar uns aos outros porque não somos parecidos.

Vivências na pesquisa

As vivências de Rosa na pesquisa não seguiram o sequenciamento normal e o padrão dos outros participantes. Ela não se dispôs a seguir as instruções de todas as dinâmicas; tomou a liberdade de utilizar os seus próprios métodos e caminhos em todas as sessões de que participou, a não ser uma única vez, quando se decidiu pelo contrário. Assim, suas vivências na pesquisa se constituíram nas atividades paranormais de seu dia-a-dia, que causaram nos membros do grupo e da equipe uma grande comoção.
Na realidade, Rosa veio ao grupo para se expor – nas suas palavras, trazer sua loucura para ser estudada, para que com isso outras pessoas possam ser auxiliadas – porque “é tão louca que os outros podem ver a loucura nela e se organizarem”[7] .
Na primeira sessão de compartilhamento, usa a vidência e expõe seu sistema de compreensão da paranormalidade para ajudar uma outra participante a encontrar um sentido para a angústia das experiências que trazia[8] . Falta nas duas seguintes de compartilhamento e na dinâmica longa de relaxamento/visualização, afirmando depois que “faltou porque as outras pessoas se assustaram com ela”, ao que os demais protestam, pedindo-lhe que não falte mais.
Na sessão de automassagem e massagem, resolve fazer o relaxamento e visualização inicial de acordo com as instruções, porque “sente a energia, a índole da facilitadora confiável, segura, que não iria manipular”. Essa decisão leva Rosa a uma demonstração de sua estrutura e de sua dinâmica “paranormal”, que nos proporciona a oportunidade de observá-la in loco. Por causa da intensidade dos acontecimentos, é realizada uma entrevista pós sessão, onde ela relata e explica a maneira como sua vivência particular se desenvolveu naquele episódio, descrito por outra componente do grupo, psicóloga com experiência hospitalar, como um surto exatamente igual ao de algumas pessoas hospitalizadas. O surto de Rosa dura exatamente o tempo da vivência, retornando ela ao seu estado normal, como quem “desperta de um sono”, assim que o grupo se reúne para o compartilhamento de sessão. Ela explica em primeiro lugar que “se desorganizou por ter seguido os comandos de uma outra pessoa, que, por mais corretos que possam ter sido, foram rápidos demais para ela, uma sensitiva[9] ”. Define a expressão “se desorganizar” como a sensação de “um elástico sendo puxado de repente, ou por uma mão, ou por um verbo (uma fala, um comando)”, e a consciência voltando ao corpo “como se despencando de algum lugar muito alto”. A observadora da equipe relata:
Rosa começa uma respiração ofegante e sacudidas no corpo, como se estivesse saindo do corpo, seu pescoço fica vermelho. Tem uns tremores. Apesar do toque de (...) segurando sua mão, ela mantém a mão solta. Pede a (...) que a traga de volta, diz que está indo para o infinito. Rosa movimenta as mãos como que evitando coisa à sua frente, diz que está muito rápido. Abre a boca e parece travar, é quando seu corpo “atravessa” (expressão sua). Diz sentir um choque, seu corpo treme e ela diz (responde) que não é ruim. Diz que sempre tem uma parte lá e ela (responde dizendo que) não quer ir buscar. Parece ter dificuldade para respirar. (...) Ela faz um movimento (tentando voltar?), é quando abre os olhos.
Depois que abre os olhos, Rosa parece uma criança muito pequena, amedrontada e perdida. Na entrevista pós sessão ela afirma não ser uma pessoa aquela criança, mas “uma energia do futuro, a quem se poderia perguntar tudo, usar tudo o que se quiser, para si e para os amigos”. Ao se deparar com outra pessoa (a facilitadora), e não João, que a acompanha na atividade semanal de indagação de acontecimentos futuros (para a qual é preparada uma “pauta de trabalho de vidência”), esse “ser do futuro” se assusta e se recolhe. Aos poucos, vai se acostumando com as pessoas presentes e interagindo com elas, numa linguagem peculiar – gutural e gestual – e comunica com expressões corporais o que sente sobre os sentimentos de uma pessoa presente. Mas em seguida, porque não é compreendida nessa linguagem, retoma a linguagem verbal, e se comunica gestual e verbalmente. Faz algumas observações e previsões de acontecimentos futuros[10] . Em seguida se aproxima da música que toca todo o tempo, deita-se, fecha os olhos e fica quieta com o ouvido ao lado da caixa de som.
A sessão segue em seus passos previstos, e quando termina, Rosa é chamada para participar da fase de compartilhamento, “acordando” e voltando a si mesma, animada, “ótima e bem humorada[11] ”, e dizendo “se sentir muito bem”. Seu marido, membro do grupo mas ausente neste dia, foi chamado no meio da vivência, e quando ele chega, no início do compartilhamento, Rosa “acomoda-se nele, chorando e contando que viu muito sangue, morte, coisa ruim lá em cima; tanta criança morrendo, como um hospital[12] ”. No entanto, ao compartilhar a sessão, afirma que “em nenhum momento teve medo ou angústia”, e explica que aquele choro era “das pessoas que viu chorando; das mães (das crianças)”. Mais adiante no compartilhamento, ela explica a vivência dizendo que “toda vez que faz um relaxamento e existe um movimento global – isto é, em qualquer parte do mundo – ela vai para o infinito e rastreia tudo, e viu a explosão de um hospital infantil[13] ”. Na entrevista pós-sessão, Rosa explica que “quando ‘voltou do cosmos’ ficou flutuando a uma distância de seu corpo, vendo uma claridade e mais nada”. Solicitada a detalhar, completa que “uma energia estava indo para o infinito, enquanto outra ficava no corpo; foi chamada rápido demais, e ‘despencou’ em grande velocidade, só voltando a si quando a energia vital se juntou com a outra”.
Na reunião seguinte, o grupo fica constituído apenas do casal Rosa e João, e é proposta a realização de uma vivência nos moldes em que é realizada habitualmente por eles, a cada semana, para podermos observá-los em seus procedimentos e resultados. É organizado então o espaço de modo que tome a forma usual para eles, e João toma a condução do relaxamento e das perguntas, que seguem o tema geral natureza e perspectivas da pesquisa. Lentamente Rosa é colocada em estado de relaxamento profundo, com fundo musical. Rosa a princípio escreve as respostas às perguntas de João e da equipe, e depois retorna à fala, e suas observações levam de forma geral a uma reflexão mais profunda dos objetivos e instrumentos da pesquisa.
Rosa faltou às demais vivências, talvez porque considerasse “o seu recado dado”. Nas entrevistas que se seguiram, afirmou que não houve nenhuma novidade para ela na pesquisa, mas que gostou muito “da energia das duas entrevistadoras[14] ”, e se surpreendeu com a sua própria disponibilidade de participar.
Pra mim é natural. É um processo que eu já fiz com outros grupos e outras pessoas, mas aplicado por vocês me deu mais segurança, mais tranqüilidade, mais assim... a certeza de que é um trabalho correto, é uma coisa digna, não é uma manipulação pra ser usado pra se auto-afirmar. É um processo mesmo de integração. (...) Pra mim o que mais me marcou foi o meu próprio interesse de ir lá. Porque a gente fica muito... gato escaldado com medo de água fria... na vida já tive tantos processos, que houve uma época que eu me independizei. E eu querer ir lá, querer estar lá participando me surpreendeu. Ter o compromisso de ter um horário, de ir pra lá, e ficar lá, esquecer das outras situações... foi eu mesma que assumi o compromisso de ficar lá. (ri) Pra mim foi o mais marcante. (...) eu falar o que eu quero sem que haja um bloqueio, né, sem que as pessoas me cortem ou me peçam pra sair porque eu não sou aceita no grupo ... (...) E realizou um aspecto importante de sua busca.
Eu procurei (a pesquisa) pra contar (a minha história), mas (antes) as pessoas nunca aceitaram. Porque isso pra mim... quer dizer, eu sempre fiz essa procura de troca, de... A ciência gosta tanto de fazer experiências e eu me coloquei num processo de experiência e as pessoas não quiseram. Então (...) esse encontro... mais cedo ou mais tarde eu encontrei alguém que com a capacidade científica, com uma capacidade de querer entender alguma coisa a mais do que a cultura da... da faculdade permite .

Mecanismos de cura
“Pra mim é natural. É um processo que eu já fiz com outros grupos e outras pessoas, mas aplicado por vocês me deu mais segurança, mais tranqüilidade, mais assim... a certeza de que é um trabalho correto, é uma coisa digna, não é uma manipulação pra ser usado pra se auto-afirmar. É um processo mesmo de integração”. (da entrevista final) – aceitação, insight, contato “Pra mim o que mais me marcou foi o meu próprio interesse de ir lá. Porque a gente fica muito... gato escaldado com medo de água fria... na vida já tive tantos processos, que houve uma época que eu me independizei. E eu querer ir lá, querer estar lá participando me surpreendeu. Ter o compromisso de ter um horário, de ir pra lá, e ficar lá, esquecer das outras situações... foi eu mesma que assumi o compromisso de ficar lá. (ri) Pra mim foi o mais marcante. (...) eu falar o que eu quero sem que haja um bloqueio, né, sem que as pessoas me cortem ou me peçam pra sair porque eu não sou aceita no grupo...” (da entrevista final) – aceitação, mudança paradoxal
Previsões
Durante toda a sua participação na pesquisa, Rosa Maria fez previsões e demonstrações de suas habilidades paranormais. Após a entrevista inicial, fez “para exemplificar a sua história” uma previsão de um acontecimento que se realizou. Falou corretamente da situação emocional de vários parentes e amigos de sua entrevistadora. Ao final, porque solicitada pela equipe, fez mais algumas previsões para “documentar” seus relatos, e possibilitar uma constatação futura. Relacionamos a seguir, a título de ilustração, algumas de suas previsões, acompanhadas de alguns fatos que ocorreram posteriormente. Outras previsões, neste momento do relato de pesquisa, ainda são futuras. Para melhor referência, estas observações foram feitas em dezembro de 2000.

Quanto ao país:
“É um momento de violência, vai haver um aumento de violência, mas não por motivo de guerra. Saída do controle, isso é uma coisa natural, (...) é a agressividade natural... nos presídios, nas Febens...” (Projeto Especial de Segurança Nacional em 2001/2).
“Morte natural de um político importante” (Mario Covas)
“Ascensão e queda de uma política. (E a ascensão dela foi porque ela subiu no salto e vai cair porque o salto é fino, e num Luís XV não se anda no dia-a-dia)” (Roseana Sarney)
“Tem um religioso aí que vai ser preso. Mas não um religioso católico. Um grande religioso” (Escândalo da LBV)
Quanto às pessoas da equipe:
“(Uma das entrevistadoras) vai se mudar (de residência)” (De fato se mudou).
“(A mesma entrevistadora) vai se casar em torno de seis meses para frente”. (Ainda não se casou)
“(Outra entrevistadora) vai receber um bom dinheiro inesperado” (De fato recebeu)
“(A mesma entrevistadora) vai ter um problema sério de ‘puxada de tapete’ com uma pessoa próxima e de confiança” (De fato teve)
Síntese Rosa, ao ser indagada sobre uma síntese de sua participação na pesquisa, afirma que ela serviu “apenas para se manter dentro da relação com a ciência”. Ao ouvir a frase elaborada pela equipe – Eu trouxe a minha loucura, pra que vocês possam ajudar outros tão loucos mas não tão funcionais quanto eu – ri muito e concorda, comentando que “é, sim, uma loucura, é uma loucura através da visão dos racionais”, e dizendo que a frase “está bem objetiva, bem como ela gosta de ser”.
Discussão
A descrição do caso de Rosa Maria nos remete à necessidade de considerar teoricamente os fenômenos paranormais ou psi, visto que não foram até agora discutidos neste trabalho. Incluímos, portanto, neste ponto (após o relato do caso), conforme nos aconselha o método fenomenológico, algumas considerações de modo a podermos analisar mais adequadamente a sua trajetória. De acordo com Mircea Eliade (1951:41), a fenomenologia de algumas manifestações paranormais se assemelha a manifestações patológicas e psicopatológicas. O autor descreve em seu tratado sobre o xamanismo vários fenômenos paranormais, que chama parapsicológicos, como estando associados às funções e ao ritual dos xamãs tradicionais de muitos povos do mundo, e às vezes mesmo sendo parte integrante deles. O transe, a subida da alma ao mundo dos deuses “para obter conselhos e proteção”, a descida da alma aos infernos para resgatar a alma de doentes, que resulta na cura daquela doença, a incorporação e o exorcismo de espíritos malignos, a materialização de objetos e de espíritos, a viagem da alma para conhecer fatos e situações distantes para proteger seu povo contra inimigos – são fenômenos conhecidos dos estudiosos das tradições xamânicas.
O futuro xamã é “recrutado” muitas vezes através de doenças graves, geralmente coincidindo com a maturidade sexual, até que resolve “se iniciar” e se cura miraculosamente. A fragilidade orgânica, como a epilepsia, e a psicopatologia estão com freqüência presentes entre as gerações de xamãs, sendo esses em diversas tribos recrutados em função de sua consistência física e psíquica peculiar, receptiva às manifestações divinas, o que faz com que ocorram confusões entre o religioso e o doente.
Considerado no horizonte do homo religiosus – o único que nos preocupa no presente trabalho - o doente mental revela-se um místico fracassado ou, mais precisamente, um arremedo de místico. Sua experiência é vazia de conteúdo religioso, ainda que se assemelhe aparentemente a uma experiência religiosa... (...) O fato de tais doenças quase sempre aparecerem relacionadas com a vocação dos curandeiros nada tem de surpreendente. Assim como o doente, o homem religioso é projetado para um nível vital que lhe revela os dados fundamentais da existência humana, quais sejam, solidão, precariedade, hostilidade do mundo circundante. Mas o mago primitivo, seja ele curandeiro ou xamã, não é apenas um doente: é antes de mais nada, um doente que conseguiu curar-se, que curou a si mesmo (pág. 41). Trata-se sempre de uma cura, um domínio, um equilíbrio, realizados pelo próprio exercício do xamanismo. Não é ao fato de estar sujeito a ataques de epilepsia que o xamã esquimó ou indonésio, por exemplo, deve sua força e seu prestígio, mas sim ao fato de poder dominar essa epilepsia (pág. 43).
O xamanismo não parece se importar muito se os médicos modernos o consideram primitivo, ou se acreditam nele ou não. Os centros espíritas de hoje, por exemplo, dispõem de inúmeros relatos de pessoas doentes, às vezes desenganadas pela medicina, que se curaram da mesma maneira miraculosa, a ponto de um número crescente de médicos brasileiros enviarem pacientes à religião ou serem, eles mesmos, espíritas ou ao menos espiritualistas. De fato, algumas pessoas hoje continuam a manifestar fenômenos já extensivamente descritos em termos xamânicos – visões, audição de vozes, saídas do corpo, sensibilidade extrema à emocionalidade própria ou de outras pessoas, e outros.
Os fenômenos psi ou paranormais têm sido objeto de inúmeros estudos feitos por cientistas e acadêmicos renomados[15] , e essa significativa quantidade “sugere ser a parapsicologia uma disciplina de pesquisa séria e profissional, vista com respeito em estabelecimentos universitários” (Alcock, 1987, pág. 554). Esses fenômenos paranormais são definidos como “a aparente habilidade de receber informações escudadas dos sentidos (PES[16] ) e influenciar sistemas fora da esfera da atividade motora (PK[17] )”, (...), e “é chamada anômala porque parece exceder de algum modo as capacidades dos sistemas sensório e motor como presentemente compreendidos” (Rao & Palmer, 1987, pág. 1). Alcock (1987, pág. 555) refere a dificuldade de definir esses fenômenos de uma forma positiva, apontando que os estudiosos os definem pelo que eles não são: “interações entre os organismos e seus meios ambientes (incluindo outros organismos) que não são mediadas por funções sensório-motoras reconhecíveis”.
Sob a classificação de paranormais ou parapsicológicos estão os fenômenos classificados como extra-sensórios – clarividência (visão de aura ou de fatos remotos, por exemplo), telepatia e precognição – os fenômenos psicocinéticos (mente-sobre-a-matéria), e as experiências fora-do-corpo (Alcock, 1987; Rao & Palmer, 1987; Vitulli, 1997). Outros autores ainda incluem a precognição em sonho, ou “sonhos premonitórios”, a retrocognição (saber o que já aconteceu) (Rao & Palmer, 1987) e as experiências de quase-morte (Blackmore, 1987). Apesar das dificuldades conceituais e metodológicas da pesquisa desses fenômenos, os autores concordam em geral com a solidez e a significância dos resultados de pelo menos parte dos experimentos sobre fenômenos paranormais realizados, o que lhes confere importância e visibilidade suficientes para se justificar uma continuidade dos estudos (Alcock, 1987; Blackmore, 1987; Braude, 1987; Glickson, 1998; Rao & Palmer, 1987; dentre muitos outros). Na verdade, mais da metade dos comentadores sobre as pesquisas paranormais referenciadas defendem a existência de fidedignidade no estudo de um ou outro fenômeno psi[18] .
Até aqui mencionamos estudos realizados com metodologia científica e alguns de seus comentários, mesmo porque não nos deparamos em periódicos científicos com qualquer estudo sobre fenômenos paranormais apoiado em metodologia qualitativa. No entanto, os fenômenos em foco são subjetivos por definição, e uma abordagem unicamente experimental necessariamente falharia em considerar o próprio cerne da questão. Alcock (1987), por exemplo, introduz a questão da subjetividade do pesquisador que “naturalmente deseja que seu experimento dê resultado” e chama a essa subjetividade “efeito do experimentador”. O autor aponta a existência e a discussão intensa sobre esse efeito em outras áreas da psicologia que não apenas a parapsicologia, e apresenta uma conclusão que a nosso ver acrescentaria um argumento de peso a uma das mais importantes críticas a um método que se propõe a uma objetividade científica paradigmática, uma vez que o debate tenda para a realidade dos fenômenos psi: a própria impossibilidade da objetividade.
Se os fenômenos psi existem (e os estudos, se por um lado não os confirmam, por outro também ainda não os refutam definitivamente), faria somente sentido que o experimentador, que naturalmente quer que seu experimento dê resultado, pudesse inconscientemente trazer sua influência psi à cena, enquanto um experimentador cético ou neutro poderia não usar seu psiquismo de modo nenhum, ou poderia usá-lo para evitar o aparecimento do efeito psi de um sujeito (em teste). Todo esse problema leva Palmer (1985b) a descrever o “efeito do experimentador” como o desafio mais importante com que a parapsicologia se depara hoje. É difícil imaginar investigação científica de qualquer natureza se os resultados da investigação são determinados pela influência psíquica do investigador (pág. 561, as observações em parênteses são nossas).
O interesse de renomados cientistas sociais e psicológicos, as evidências científicas que indicam a possibilidade de existência desses fenômenos e, em nosso contexto, o testemunho da experiência vivida de uma participante de nossa pesquisa, nos confirma a necessidade de estudos que complementem e auxiliem a diminuir as limitações dos métodos baseados numa objetividade talvez impossível, explicitando a subjetividade onipresente através da entrevista fenomenológica.
A exploração fenomenológica tem o poder de expor e organizar a lógica interna dos fenômenos psi do ponto de vista daqueles que os vivem e têm condições de explicitá-los, elucidando em medidas várias o seu modus operandi. Ao mesmo tempo, através do processo de questionamento e feedback entre entrevistador e entrevistado, a entrevista fenomenológica permite a objetivação da subjetividade do experimentador na medida em que ele conscientemente percebe e suspende a própria visão de mundo para ouvir a vivência do outro conforme o outro mesmo a descreve e compreende. Assim, foi com esses pressupostos que abordamos a experiência de Rosa Maria.
No entanto, a se seguir os parâmetros médicos, seu diagnóstico seria imediato: transtorno da personalidade esquizotípica, segundo o DSM-IV. O manual descreve esse transtorno como ...um padrão invasivo de déficits sociais e interpessoais, marcado por agudo desconforto e reduzida capacidade para relacionamentos íntimos, além de distorções cognitivas ou perceptivas e comportamento excêntrico. Os indivíduos com TP Esquizotípica muitas vezes têm idéias de referência (isto é, interpretações incorretas de incidentes casuais e acontecimentos externos como se tivessem um significado particular e incomum, especificamente destinado a eles) (Critério A1). (...) Esses indivíduos podem ser supersticiosos ou preocupar-se com fenômenos paranormais que estão fora das normas de sua subcultura (Critério A2) Eles podem pensar que possuem poderes especiais de pressentir acontecimentos ou de ler pensamentos de outras pessoas. (...) Alterações da percepção podem estar presentes (por ex., sentir a presença de outra pessoa ou ouvir uma voz murmurando seu nome) (Critério A3). Seu discurso pode incluir construções idiossincráticas, sendo frequentemente desconexo, digressivo ou vago, porém sem um real descarrilamento ou incoerência (Critério A4). (...) Eles geralmente não são capazes de lidar com toda a faixa de afetos e indicadores interpessoais necessários para relacionamentos bem-sucedidos, de modo que muitas vezes parecem interagir com os outros de maneira inadequada, rígida ou constrita (Critério A6). (...) Estes indivíduos interagem com os outros quando precisam, mas preferem ficar sós, por acharem que são diferentes e simplesmente “não se encaixam” (Critério A9). (...) Particularmente em resposta ao estresse, os indivíduos com esse transtorno podem vivenciar episódios psicóticos transitórios (durando de minutos a horas)... (pp. 604-5)
De fato, Rosa fecha o diagnóstico. Interpreta as reações agressivas das outras pessoas como agressões pessoais a ela. Rebela-se contra a religião de sua mãe e rompe com toda a cultura espírita, mas elabora e mantém um referencial de paranormalidade que desafia e vai além dos fenômenos espíritas. Pressente acontecimentos e lê pensamentos de outras pessoas. Não somente sente presenças, mas vê pessoas corporeamente ausentes. Seu discurso é permeado por neologismos e interrupções frequentes. Considera-se, e mesmo define-se por agressiva e incômoda, e retira-se dos grupos por “não se encaixar, não se sentir aceita”, e finalmente, em resposta a uma frustração em viver o relaxamento “na sua própria velocidade”, tem um episódio psicótico transitório que dura cerca de uma hora.
Ana, a participante de seu grupo que é psicóloga e tem experiência hospitalar, relata que viu alguns casos desses (dissociações) no hospital psiquiátrico em que trabalhava, sendo que uma paciente em especial lhe chamou a atenção “por fazer exatamente o que Rosa fez: olhava nos olhos, às vezes tocava, enrolava a língua e dizia algo sobre o passado, o futuro ou o presente da pessoa”[19] .
Uma compreensão linear como essa poderia ter condenado Rosa à institucionalização – e à impossibilidade de se estruturar da forma funcional como fez. Mas Rosa tem uma vida organizada. É esposa, mãe e avó; escritora e conferencista. Trabalha juntamente com seu marido na divulgação e esclarecimento sobre a paranormalidade – que define como “o elo perdido entre o ser humano e a consciência cósmica” – e dá cursos em São Paulo e Brasília. Assumiu a vidência como uma proposta, um sentido de vida – como prometera em sua meditação.Como se poderia explicar dentro da psicopatologia o fato de que Rosa buscou e encontrou o seu caminho e recuperou seu equilíbrio e funcionalidade, apesar de tanta dor, confusão, medo e rejeição, dentro da sua própria visão de mundo? Como explicar ser procurada por tantas pessoas, a ponto de viver de sua atividade paranormal? E como explicar o fato dela acertar tantas previsões que faz? Apesar de Rosa ter rejeitado as “normas de sua cultura” espírita, ela conseguiu buscar, estudar, organizar e construir “normas” mais adequadas à sua personalidade e identidade. Completou sua experiência – vivenciou, sofreu, retornou e compreendeu – integrando sua compreensão à sua totalidade (Moraes, 1995:252). Rosa “solucionou o problema por meio de reestruturações cognitivas” sucessivas, diminuindo a tensão, o que transformou sua experiência num episódio “valioso e significativo” para a sua vida (Jackson, citado em Hay, 1994)[20] . Rosa é “agressiva, não se encaixa, não se sente aceita, prefere ficar sozinha, e sofreu rupturas em seus relacionamentos sociais”. No entanto, foi a mesma agressividade – no seu aspecto “reação igual e contrária a um estímulo sentido como agressivo” – que a levou a buscar recursos, ajuda para a sua angústia. Percorreu obstinadamente religiões, filosofias, ciências, procurando um espaço onde pudesse falar, relatar, contar sua história e a realidade que vivia, ser escutada, considerada em sua própria percepção, participar da construção de um sentido como apenas o sujeito vivenciador pode referenciá-lo e eventualmente compreendê-lo. Em todos os lugares e pessoas a quem recorreu, encontrou a certeza da loucura, justificada pelos mais diversos argumentos teóricos, dogmáticos, e assegurada pelas mais diversas motivações pessoais para exercer o poder. Rosa se rebelou contra essas imposições e desrespeitos à sua humanidade e se recolheu, buscando no seu próprio interior as respostas de que precisava.
Imaginemos agora, no lugar da Rosa Maria de personalidade enérgica e agressiva, uma Rosa passiva, retraída, dócil, tímida ou condescendente. Imaginemos a mente, o ser psíquico de uma Rosa passiva e condescendente invadido por imagens, pensamentos, previsões, ameaças tanto silenciosas de rejeição e abandono como retumbantes de perigos e retaliações à sua tentativa de existir e individualizar-se. Receptiva e passivamente, esta Rosa confia, acredita em todas as ameaças e prognósticos. Entra em angústia, e em seguida em desespero. Quanto mais desesperada, menos centrada e menos capaz de discernir entre as imagens e pensamentos que a invadem e os seus próprios símbolos interiores. A vidência, a precognição, a telepatia e as saídas do corpo se descontrolam cada vez mais. As imagens e pensamentos alheios criam vida própria e passam a participar e a dominar sua interioridade como se fossem ela mesma. Rosa começa a responder a eles, e no seu desespero crescente não percebe mais se fala alto ou baixo, se tem diante de si uma imagem ou uma pessoa real. Busca a ciência por ajuda – e esta lhe dá um rótulo, medicamentos e a confina.

Paranormalidade e patologia podem vir, e de fato frequentemente vêm, associados. No entanto, poderíamos mesmo estabelecer uma relação de causa e efeito entre esses fatores, ou a patologia seria mais coerentemente associada com o sentimento de não aceitação, de “peixe fora d’agua”, de angústia, isolamento social e solidão que os indivíduos paranormais experimentam porque esses fenômenos não são encarados com tranquilidade e normalidade? Não seriam os “sintomas” que essas pessoas manifestam tentativas de estabelecer formas de atuação por tentativa-e-erro, até estruturarem um modelo de solução de problemas minimamente ou suficientemente funcional? Lukoff & cols (1991, 1997, 1998), na sua “avaliação mais sensível dos problemas religiosos e espirituais” chamam à crise de Rosa, na sua tentativa de estruturação de um novo modelo, um “problema espiritual não atribuível a desordem mental”, visto que incluem a “crise xamânica” entre seus exemplos.
Sob esse aspecto, deveríamos considerar os procedimenos de muitas religiões e seitas igualmente como modelos de solução de problemas, os quais, utilizados por um considerável número de pessoas e limitados aos seus espaços sociais próprios de manifestação, não carreiam o perigo de contaminarem a totalidade dos indivíduos com fenômenos considerados, sem a atenção e o critério devidos, como negativos e incontroláveis. No entanto, conforme alguns autores (Elkins, 2000; Jung, 1961; Pratt, 1907), o espírito moderno não vem mais se satisfazendo com as religiões, seja por incompatibilidades racionais pessoais, seja pela postura ética dos líderes, ou por causa dos próprios parâmetros daquela seita ou religião.

Rosa se designa por “nós” – autotratamento que configura um dos critérios por que se chega ao diagnóstico de esquizofrenia. No entanto, ao olharmos mais de perto o sentido que tem para essa pessoa em especial o tratamento plural, encontramos uma explicação dentro de sua própria lógica: “nós” significa seus diversos aspectos humanos: seu corpo, sua emoção, seus valores, tudo aquilo que comporta a complexidade humana. Significa que para fazer-se compreender nesses diferentes aspectos, necessita referir-se a eles como diferentes, embora todos fazendo parte dela mesma

A paranormalidade é uma forma... é um termo muito bonito que a ciência deu, e eu uso. Não que eu seja isso. Eu uso um termo bonito que me deram. Não existe o eu, na pessoa da Rosa Maria. Ou melhor, a Rosa Maria pessoa é eu, mas a Rosa Maria ser, é nós. A Rosa Maria é psiquê, é emoção, são energias, conclusões, fatores, vida.
O discurso de Rosa é permeado de neologismos,“inclui construções idiossincráticas, sendo frequentemente desconexo, digressivo ou vago”. Mas quem já conseguiu expressar com linguagem exata a experiência transcendente (Bucke, 1901, James, 1902, Moraes, 1995; Weil, 1974, 1977,1993), a não ser através da poesia, da arte, da dança ou do silêncio e da meditação? Os relatos de experiências transcendentes que recolhemos, seja neste trabalho ou no anterior (Moraes, 1995) vieram invariavelmente com reticências, neologismos, longas pausas e hesitações, e muitas frases não foram absolutamente completadas.
Rosa Maria desempenha rituais. Semanalmente, num ambiente cuidado e preparado especialmente, submete-se ao relaxamento conduzido por uma pessoa da sua confiança – “que não vai induzir nem manipular” – penetra em sua interioridade e “sintoniza” sua paranormalidade. É interrogada sobre acontecimentos pessoais e globais, e responde segundo a experiência acumulada durante toda a sua vida de “anormal”. A pesquisa científica sobre os fenômenos psi explica essa atitude ritual de Rosa com o “modelo de redução de ruído” (Rao & Palmer, 1987), presente por exemplo nas atividades de meditação e yoga, e definido como uma hipótese que
parece reunir um corpo amplo e diverso de resultados experimentais: a idéia de que fenômenos psi podem ser facilitados por procedimentos que resultam na redução de inputs sensórios e proprioceptivos significativos no organismo, e o concomitante redirecionamento da atenção para imagens geradas no interior. (...) Qualquer que seja seu “real” mecanismo, a PES pode ser utilmente pensada se comportando como um sinal fraco que precisa competir pelos recursos de processamento de informação do organismo. Segue-se a isso que a redução da atividade sensório-motora contínua pode facilitar a detecção de PES pelo organismo (pág. 548).
Na sessão de automassagem e massagem, no relaxamento inicial Rosa Maria “vai ao cosmos” buscar conhecimento e energia para si mesma e para outras pessoas. Com relação às primeiras etapas da vivência, Rosa expõe a sua forma de compreensão do que Eliade (1951) descreve como uma das funções do xamã.
Aí quando ela mandou nós procurarmos a fonte eu fui direto pro cosmos, onde eu consigo assimilar e trabalhar... E o cosmos... ele é muito amplo, e naquele ângulo a gente fica absorvendo dados, absorvendo conhecimento, absorvendo estrutura psicológica emocional, absorvendo tudo que um ser precisa. Isso tem que ter um tempo, né, então naquele tempo ali eu fico alheia a aqui. Eu estou lá no espaço onde toda a minha energia, a minha energia principal se junta com uma energia onde há... eu diria assim: uma harmonia, né, para que quando nós voltássemos... porque quando se volta, se volta mais tranqüila quer dizer, com mais consistência do que já se sabe, com mais consistência do que se fala, com mais... quer dizer, é... dando mais ênfase ao que se viveu, e de fato tudo aquilo continuou... porque toda vez que se vai ao cosmos, os ensinamentos, as energias, o cuidado, tudo aquilo que o cosmos nos dá uma vez, todas as vezes que nós vamos lá, ele continua nos dando. E também uma boa responsabilidade, né. Porque depois, com tranquilidade, eu fui passar as informações pra quem de direito, transformadas racionalmente e verbalmente (do relato da sessão).
Não participou da primeira – mais longa e mais completa – vivência de relaxamento e visualização da fonte da vida, só vindo a experimentar a dinâmica em sua forma mais rápida e condensada. Assim, ela é chamada de volta antes de ter completado sua vivência; tenta atender à instrução e “desce rápido demais” – o que para uma pessoa (não para)normal também traria a sensação do inacabado, do insatisfatório, do insuficiente. Ao retornar, toma a forma de um “ser do futuro” com jeito de criança, utilizando uma linguagem peculiar e corporal, comunicando a nós uma outra forma de atuação ritual.
Esse “ser do futuro” – ou “ser atemporal”[21] – que pode dar respostas sobre tudo o que lhe for perguntado representa uma outra estrutura, um outro continente para a comunicação. Neste momento esta “estrutura” precisa se expressar, contar que foi apressada, atropelada e desrespeitada novamente, e ao mesmo tempo precisa desempenhar a sua tarefa de transmitir as informações psi que estão sempre à sua disposição. Ela não vive seu “episódio psicótico transitório” em qualquer lugar; ao contrário, escolhe com discernimento – pois “sentiu a energia da facilitadora confiável, que não vai manipular” – o contexto, o lugar e as pessoas em quem vai confiar e para quem vai se expor em sua “anormalidade”.
Com a escolha desta forma simbólica, portanto, Rosa nos fala muito. Numa hora apenas, Rosa surta e retorna, contando sua história. Fala de sua imensa e proibida doçura, sensibilidade e empatia, de sua história emocional, de seu sentimento de solidão, abandono e estranheza num mundo onde os outros não são como ela, de seus conflitos e lutas com as pessoas que não conseguiram ouvir e aceitar a verdade direta e simples, de seu medo de não ser aceita, de sua busca de acolhimento e organização.
Fala também que encontrou essa organização, uma linguagem; que encontrou uma forma, uma estrutura, e com essa estrutura ela pode dizer, falar, “passar as informações”, cumprir sua missão de xamã moderna – que é a “sua natureza” – desde que tenha um outro do seu lado que a acompanhe, mas que não manipule, não invada, tenha a mente aberta, como João, Catarina e a facilitadora da pesquisa. Ana, a psicóloga participante de seu grupo, tendo vivido ela mesma muito da angústia da não-aceitação que Rosa viveu, expressa sobre o que viu dela nesse momento, muito mais do que uma “opinião profissional”, o seu sentimento.
Eu notei, em certo momento, que a Rosa estava passando mal, a respiração dela estava ofegante. Para mim, ela teve um surto. Acho que deve ser muito sofrimento para ela. Ela não admite que sofre, mas o que eu vi diante de mim foi um ser humano sofrendo. (...) Será que é preciso tanto sofrimento para dizer ao outro o que se percebe dele? Ela parecia uma criança. E eu não consigo deixar de pensar que foi como criança que ela percebeu que era melhor a fantasia do que a realidade, que era melhor a sensibilidade do que a razão, que era melhor o Cosmos do que a terra, a casa, a família. Eu tive vontade de embalar a criança que eu vi ali e de dizer para ela que hoje ela já pode vir para a terra, que hoje ela seria amada e querida e respeitada. (...) Mas hoje, o que eu vejo, é que ela continua tendo o espaço de amor, bem querer e respeito saindo de si, sendo outra pessoa, vivendo num outro mundo, num outro cosmo. Assim ela consegue ser diferente, especial, única. Nem que seja pelo medo que as pessoas sentem do fantástico.
Ao mesmo tempo, Rosa está empenhada em seu processo de aprendizado, e enfatiza sempre que ainda há muito a aprender “enquanto estiver nesse mundo que ainda não está organizado na sua plenitude”. Ela se preocupa e trabalha com “a sua gente”, os paranormais que, como ela, precisam “se organizar”. Continua tendo que se equilibrar entre a sua vidência e sua pessoa em relação com outras pessoas, assim como todas as pessoas humanas. Continua “incômoda”, e precisa sempre equilibrar-se diante das situações emocionalmente estressantes e da reação das pessoas com a sua vidência. Continua tendo que recorrer à sua “postura de paranormal” para conseguir esse equilíbrio. Mas atingiu o nível de autonomia e funcionalidade, trabalhando criativamente segundo a orientação e o direcionamento de sua vida (Duykaerts, 1966). Rosa Maria reorganizou-se como paranormal, assumindo sua condição de xamã moderna, (Eliade, 1951) e se a reorganização ocorreu, isso parece significar que a própria paranormalidade existe, a despeito de suas semelhanças e confusões com a psico(patologia).
O que é postura? Saber que nós temos essa capacidade, saber que nós usamos a vidência, a telepatia, saber que nós somos seres iguaizinhos aos outros, sem mudança nenhuma, constantemente cuidando de seus egos, as suas auto-afirmações, não permitindo que esse processo de paranormal toque de alguma forma nos outros pra que nos inflame, né? Cuidando muito, mostrando sempre o respeito, a igualdade. Ela tem um sentido de vida. Mas de uma vida natural, e não fora de um contexto natural. De ser uma mãe, uma dona de casa, de lavar, de passar, de cozinhar quando necessário. Não é que eu faça muito, mas quando necessário. De saber lidar com as pessoas, não querer que as pessoas me aceitem, porque eu já me aceitei. (...) Isso é o sentido da vida, fazer parte da vida. Fazer parte da sociedade, fazer parte da família, fazer parte dos amigos, e manter uma postura discreta pras pessoas entenderem que nós somos iguais. É muito importante isso.

[1] Jung, 1961, pág. 292-3
[2] Paranormalidade, o Elo Perdido. Ed. Ground.
[3] Tempestades Internas: Histórias de Vidências, Ed. Ground
[4] Nome fictício.
[5] O tipo de paranormalidade que cada pessoa possui
[6] A intuição é uma das “calibragens” mais comuns da paranormalidade
[7] Dos relatos de sessão.
[8] No compartilhamento e no relato dessa sessão, a outra participante agradece emocionada esse auxílio.
[9] Da entrevista do final da sessão.
[10] Essas ainda não podem ser checadas, porque no momento deste relato os acontecimentos ainda são futuros.
[11] Do relato da observadora
[12] Do relato da observadora
[13] Outro membro do grupo relata que no seu relaxamento, ainda em silêncio, viu “uma chama, uma labareda imensa”.
[14] A facilitadora e a observadora de seu grupo, que realizaram a entrevista final.
[15] Para uma relação desses cientistas, veja-se Alcock, 1987, pág. 554, e suas referências bibliográficas.
[16] Percepção Extra-Sensorial.
[17] Psicocinese, de psico-kinesis.
[18] Ver Behavioral and Brain Sciences, vol. 10, pp. 539-618 e vol. 21, pp. 301-3.
[19] Do relato da sessão..
[20] Ver pp. 25-6.
[21] Muitas vivências transcendentes são atemporais.

Release do Livro

A espiritualidade está em voga. Certamente, não escapa aos olhos do leitor o fato de que, desde a virada do século, a espiritualidade está aflorada. No esteio desse despertar, também encontramos uma abertura para discutir a religiosidade sob nova ótica. A própria academia começa a se abrir mais intensamente para essa discussão, seja no campo específico das Ciências da Religião, seja nas elaborações crescentes em outras áreas, tais como a Psicologia, a Sociologia e a Antropologia da Religião.

A idéia deste livro nasceu de uma dupla necessidade. Necessidade de afirmação - de um espaço, de um trabalho desenvolvido; e necessidade de apresentação desse mesmo espaço.

Dentre os desafios, destacam-se a manutenção de um locus de discussão e apresentação da religiosidade - representado pela disciplina de Psicologia da Religião - além do desenvolvimento de pesquisas sobre a experiência religiosa, por meio de um enfoque fenomenológico.

Assim, pela compilação de textos necessários à discussão do tema da religiosidade e por contarmos com número significativo de trabalhos em estágio avançado de desenvolvimento, surgiu-me a idéia de reuni-los num só documento, constituindo um corpus teórico e empírico que marca a singularidade desta obra.
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